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Como é o trabalho escravo hoje, segundo relato de uma vítima

O ‘Nexo’ conversou com Rafael Ferreira, que trabalhava em situação análoga à escravidão em Mato Grosso, foi libertado em 2008 e falou em campanha da Organização Internacional do Trabalho

RAFAEL FERREIRA DA SILVA FOI RESGATADO EM 2008 E HOJE É CHEF DE COZINHA
Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/05/17/Como-%C3%A9-o-trabalho-escravo-hoje-segundo-relato-de-uma-v%C3%ADtima
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Mais de 50 mil pessoas foram libertadas entre 1996 e 2015 no Brasil. Foram 1.111 apenas em 2015, segundo os dados mais recentes do Ministério do Trabalho. As condições do trabalho análogo à escravidão hoje são resultado, sobretudo, de relações  irregulares em que empregados têm sua liberdade comprometida por conta de dívidas contraídas junto aos empregadores, que podem incluir alimentação, moradia, transporte e mesmo o aluguel dos equipamentos de trabalho  Em situações como essa, as pessoas costumam trabalhar além da jornada legalmente permitida, com uma remuneração baixa e em situações degradantes. Para muitos, essa realidade pode ser institucionalizada com um projeto em discussão atualmente no Congresso. O Nexo conversou com o chef de cozinha Rafael Ferreira da Silva, libertado em 2008 de situação análoga à escravidão por uma ação de fiscalização do Ministério do Trabalho. No início de maio, Silva falou ao Senado brasileiro como parte de uma campanha para que o governo federal ratifique o Protocolo da OIT sobre trabalho forçado no mundo. A situação em que Silva foi encontrado é representativa da realidade de grande parte dos escravos brasileiros contemporâneos. Ele morava com sua família aos finais de semana, mas passava o resto dos dias em barracas de lona na fazenda em que trabalhava em Jauru, em Mato Grosso, sem água encanada, esgoto, luz ou proteção contra a chuva. Entre os 14 e 17 anos, trabalhou transportando água de cursos d’água para trabalhadores rurais, em uma jornada que durava mais de 12 horas diárias, segundo ele próprio. O salário era de R$ 5 por dia, ou R$ 100 por mês, mas Ferreira afirma que tinha que pagar pelo próprio transporte e alimentação. Sobravam R$ 30 ou R$ 60, quando ele dispensava o transporte e andava 30 km até a casa onde sua família morava. Liberto em 2008, ele recebeu uma indenização de R$ 10 mil. Hoje, trabalha como chef de cozinha em Várzea Grande, próximo à capital Cuiabá, e estuda engenharia em uma faculdade particular que custa 70% de seu salário. Veja abaixo seu relato: Onde você nasceu e qual era a situação da sua família? RAFAEL FERREIRA DA SILVA Nasci em uma cidade chamada Vilhena, em Rondônia, em 1991. Quando eu era pequeno, meus pais vieram para o Mato Grosso, Jauru. Eles tinham quatro filhos, eu sou o caçula. Tanto meu pai quanto minha mãe trabalhavam como “roça pasto”. Eles faziam todo tipo de trabalho: de cuidar do gado a fazer cercas. Quando eu tinha uns cinco anos, meus pais se separaram, até hoje eu não sei por quê. A minha irmã mais nova ficou com a minha mãe. A mais velha, Débora, e meu irmão, Fernando, e eu fomos para Belo Horizonte com o meu pai, que foi trabalhar na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) como jardineiro. Ele casou de novo com uma mulher que tinha mais dois filhos, e eles tiveram uma filha. Lá por 2004, meu pai ficou com medo de a gente se envolver com o aumento da criminalidade, e trouxe a família de volta para [Jauru,] Mato Grosso, que todo mundo fala que é terra de oportunidades, onde comprar terreno e manter uma família é mais em conta. Mas entre aspas, porque o sacrifício é muito alto, hoje eu sei disso. A gente morava de favor em um sítio de um tio do meu pai, sem luz ou água encanada, foi a parte mais difícil. Quem mora de favor tem que ajudar de fazer alguma coisa, e tínhamos que fazer pasto, etc. Como você começou a trabalhar? RAFAEL FERREIRA DA SILVA Em 2005, meu pai se encontrava em uma situação muito difícil para comprar material escolar. Ele pediu para eu ir trabalhar no final do ano para eu comprar o material do ano seguinte. Foi quando começou a minha ida para o trabalho. Eu roçava a lavoura de milho de um conhecido do meu tio para não deixar crescer mato. O dinheiro deu para comprar material que durou até setembro, mas depois disso eu não consegui mais acompanhar, pedi para meu pai comprar caderno, mas ele trabalhava na roça e disse que, naquele momento, não tinha como. A situação [financeira] dele atingia a gente na escola. Também não tinha como comer, o básico. Meu irmão mais velho já trabalhava na fazenda sem estudar e me perguntou “você quer trabalhar? A gente arruma um serviço para você”. Em 2006 eu tinha 14 anos, abandonei a escola e fui trabalhar no cargo de bombeiro: eu ia nos córregos, e pegava água para os peões beberem. Eu ia longe, às vezes demorava uma hora ou duas horas. Tinha lugares que eram serra, e eu tinha que descer procurando a uma temperatura que chegava a 40ºC. Às vezes era água meio barrenta, às vezes com gosto diferente. Na ida era fácil com o galão vazio. Na volta era difícil, na subida e com um galão de 10 litros e outro de 5 litros cheios. Isso quando eu comecei e não tinha corpo para aguentar tanto peso. Depois eram dois galões de 20 litros, quando eu já tinha 15 para 16 anos. Em que vocês trabalhavam? RAFAEL FERREIRA DA SILVA Aqui no interior do Mato Grosso, os produtores de gado de corte têm fazendas muito grandes. E se uma árvore passa de dois metros não pode cortar porque o Ibama enche a paciência. O trabalho dos peões era percorrer a fazenda e limpar as árvores antes de elas crescerem. Eram 12 equipes de 30 pessoas. A gente rodava por uma propriedade de aproximadamente 45 mil alqueires. É como em São Paulo, que tem zona sul, zona norte, zona leste, zona oeste. A gente ia do retiro 1, 2, 3 ou 4 e trabalhava na área. Quando terminava o 4, voltava para o 1. Isso demorava mais ou menos um ano, um ano e dois meses se o mato estava alto. Os retiros eram barracos de lona, onde você finca dois ganchos em formato de estilingue, passa uns pedaços de pau e faz uma barraca, sem parede, só para acampar. Fazíamos a cama de tarimba, pegávamos quatro ganchos pequenos, como se fosse um Y, fincávamos no chão, colocávamos uma ripa de madeira e fazíamos como se fosse uma cama. Quem tinha dinheiro comprava colchão, nós que não tínhamos pegávamos lençol, cobertor. Eu trabalhava para um dos maiores proprietários de terra no Mato Grosso. Sabemos na região que o nome dele é Alto ou Aldo. Como você foi libertado? RAFAEL FERREIRA DA SILVA Quando eu completei 17 anos, parei de ser bombeiro e passei para a foice. Minha diária era R$ 5 e foi para R$ 15. Fiquei em torno de oito ou nove meses, foi quando o Ministério [do Trabalho] apareceu. Estávamos trabalhando e de repente veio um jagunço da fazenda de moto, falou que tínhamos que parar o serviço e fomos todos para o barraco. Já sabíamos que tinha denúncia, mas nunca achamos que algo ia acontecer de fato. O cara passou de moto e disse que era para ir para o barraco e não trabalhar mais. Quando chegamos no barraco, vieram quatro viaturas da Polícia Militar, eles fizeram uma abordagem, chamaram todo mundo e levaram no caminhão para a cidade. E começou um processo que durou em torno de duas semanas. Tivemos que puxar o histórico de todo mundo, quem era de menor ou não era, quem tinha mais tempo ou tinha menos. Eu tinha 17 anos, e minha situação foi considerada trabalho escravo. Depois de duas semanas, recebemos uma multa. Com o valor, muitos voltaram para o mesmo tipo de trabalho, e outros tentaram mudar de vida. Eu ganhei R$ 10 mil, comprei três lotes na cidade onde eu morava, em Jauru, no Mato Grosso. Construí uma casa em um deles e fiquei por um bom tempo. Outro lote eu dividi com minha irmã e outro com meu irmão. Depois que eu completei 18 anos, comecei a não me sentir bem, eu não tinha mais cabeça por causa da separação dos meus pais, me deu depressão. Eu queria ocupar o vazio, comecei a gastar com farra, com amigos entre aspas. Gastei e acabei com tudo o que ganhei. Antes de ser libertado, você se considerava escravo? RAFAEL FERREIRA DA SILVA Eu tenho duas visões, a do passado e a de hoje. No passado eu não via aquilo como escravidão. Era o único emprego no município, e do meu ponto de vista era “é isso que tem, é isso que a gente vai fazer”. Minha visão de hoje é de que é trabalho escravo. Porque o lugar em que morávamos não era adequado. Não tínhamos uma cama para dormir. Se chovia, tomávamos chuva, passávamos frio. Não tínhamos nem uma casa simples, era um barraco de lona. O trabalho escravo acontece por ser forçado, exaustivo, sem hora de começar e parar, ou quando o trabalhador está devendo e tem que trabalhar para pagar. No meu caso, foi trabalho escravo porque eu trabalhava e devia, tinha que pagar transporte, refeição e ferramentas de trabalho. Isso era trabalho escravo. Eu trabalhava, em geral, das 6h às 18h ou 19h, depois íamos dormir. Você tem acompanhado as discussões sobre mudanças das leis trabalhistas? RAFAEL FERREIRA DA SILVA Tenho acompanhado por alto. Como eu falei no Senado em Brasília, do meu ponto de vista, se a gente passar por essa reforma trabalhista ou da Previdência, estaríamos andando para trás, para a época dos escravos. Com as leis que hoje apoiam o trabalhador, o patrão, ou sinhozinho de hoje, já tem brechas na lei, imagina com uma lei a favor deles. Eles vão fazer muito mais escravos, a gente estaria voltando 200 anos. Falei no plenário que peço que isso não venha a acontecer. O que eu passei gerou uma cicatriz em mim que me causa dor. O Brasil é gigantesco, caloroso, mas estaríamos voltando à escravidão, e isso não desejo a ninguém. Eu tenho que trabalhar, dar meu suor, mas preciso do meu acerto, das minhas contas. ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que Rafael Ferreira da Silva é porta-voz da OIT. Na verdade, ele apenas participou de uma campanha da organização. A informação foi corrigida às 17h44 de 18 de maio.

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