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A rota e a vida dos escravos fugidos para Santos

No dia em que a Lei Áurea completa 129 anos, o Diário do Litoral aborda como se deu o antes e o pós-abolição. Sítio da Ressaca teria sido o ponto de encontro em São Paulo.

Não se sabe ao certo a data, mas a chegada dos primeiros escravos negros ao Brasil se deu em meados de 1538 e 1542. No ápice da escravidão no País, entre 1701 e 1810, estima-se que quase dois milhões de africanos tenham sido trazidos em grandes embarcações conhecidas como ‘navios negreiros’.

Serviam de mão de obra forçada, não tinham direitos e sofriam todos os tipos de humilhação e violência. Os que conseguiam fugir das senzalas abrigavam-se em quilombos. Santos abrigou três desses refúgios. Muito ainda há de se conhecer sobre esse período.

“Em São Paulo, a escravidão começa quando o café sai do planalto fluminense e entra no interior paulista, em fazendas localizadas em cidades como Jundiaí, Campinas e Mairinque”, explicou o historiador Flávio Viana. Os escravos chegavam ao estado a pé por Minas Gerais ou vindos de barco do nordeste. Na capital paulista não havia muitos escravos. “Eram mais escravos de ganho (que cuidavam da família e da casa) de fazendeiros que tinham casas na Avenida Paulista e passavam dias na cidade negociando o café”, afirmou.

As marcas da escravidão eram facilmente encontradas na pele negra, seja por inscrição feita a ferro quente ou pelos vergões da violência.

“Qualquer negro que fugisse era marcado com F de fujão. Queimavam a pele para saber se era fugitivo. Como na capital havia mais escravos de ganho, que usavam vestes diferentes, o negro visto com calça surrada, descalço e sem camisa era facilmente reconhecido. Os jornais da época publicavam nos classificados anúncio de capitães do mato em busca do escravo que fugiu”.

Libertação

Em 1.880 teve início o declínio da escravidão com o aumento do número de alforris e a revolta negra. O movimento abolicionista foi se fortalecendo e com ele surgiu vertentes radicais, como a dos caifazes – soldados armados vestidos de branco. “Todos voluntários, sempre liderados por um branco. Eles invadiam fazendas durante a noite. Enfrentavam os capitães do mato, arrombavam as senzalas e libertavam os negros”, disse Viana.

Os escravos eram escoltados pelos caifazes até um ponto seguro e de lá seguiam para áreas indicadas pelo movimento de proteção onde eram encaminhados para os quilombos, espaços criados para abrigar os negros fugidos.

Embora o Brasil tenha promulgado leis e assinado tratados internacionais com o compromisso de acabar com a escravidão no país, nada foi feito e a abolição da escravatura foi sancionada apenas em 13 de maio de 1.888, pela Princesa Isabel.

“Foi por causa desse não cumprimento dos acordos que surgiu a expressão ‘feita para inglês ver’. Para ter uma ideia, D. Pedro I, quando declarou a independência assinou tratado que até 1.830, a escravidão seria abolida no Brasil. Em 1.831, ele promulgou uma lei que proibia o tráfico internacional de escravos. Mas o tráfico continuou, assim como a escravidão”, afirmou o historiador.

Sítio da Ressaca e o caminho para o litoral

A casa de taipa localizada no bairro Jabaquara, em São Paulo, com inscrição 1.719 na porta principal, provável ano de sua construção, pode ter sido um ponto onde os escravos fugidos do interior de São Paulo descansavam para seguir viagem até o litoral. Na época, aquela região era de mata deserta. O Sítio da Ressaca fica no interior de um complexo que abriga atualmente biblioteca com acervo dedicado a cultura negra e o Centro de Culturas Negras da capital.

“Não existe registro histórico e oficial de que tenha sido um quilombo de passagem. O que temos são teses de historiadores e de alunos de arquitetura que estudaram esse local. Não temos livros oficiais sobre esse momento histórico que o Jabaquara e que essa região viveu”, afirmou Tatiana Rodrigues Nascimento, bibliotecária responsável pelo acervo temático da Biblioteca Municipal Paulo Duarte.

Segundo o historiador Flávio Viana, que também é advogado e relator da Comissão da Verdade sobre a Escravidão no Brasil da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Santos, a tese mais provável, embora não exista registro histórico, é de que o Sítio da Ressaca, que recebeu esse nome provavelmente por conta do córrego que passava ao lado, estivesse abandonado e por isso foi utilizado pelos escravos como ponto de parada até seguirem para os quilombos de Santos.

“O Sítio da Ressaca pode ter sido um quilombo de transição. Eles eram escoltados pelos caifazes e a pé iam pelas estradas vicinais ou seguiam a linha férrea com destino a Santos. A rede protetora dizia que horário era bom e que caminho era mais fácil”, afirmou Viana.

Nesse período, anos antes da oficialização da abolição da escravatura, o transporte de cargas para o litoral era feito por trens e a Calçada do Lorena, caminho de pedra feito na serra do mar, caiu em desuso. “Ela estava abandonada. Pela calçada não seriam facilmente descobertos. A alfândega ficava em Cubatão, mas eles passariam pelo meio do pântano por fora”, destacou o historiador.

Ao chegar a Santos, cidade considerada abolicionista, os escravos eram acolhidos pela igreja católica. “Provavelmente eles eram recebidos na Igreja do Valongo. Passavam pelo túnel subterrâneo do Valongo para a Igreja do Rosário dos Homens Pretos, na Rua João Pessoa. Ali esperavam anoitecer e, na madrugada, seguiam para os quilombos”, afirmou Viana.

A tese pode ser reforçada devido a coincidência dos nomes dos bairros paulistano e santista. Curiosamente Jabaquara abriga o Sítio da Ressaca, em São Paulo, e em Santos dá nome à região onde foi localizado o maior quilombo da ­cidade.

Os três quilombos de Santos

Os escravos fugidos que chegavam a Santos seguiam para um dos três quilombos existentes na cidade. O do Jabaquara, liderado por Quintino de Lacerda, foi considerado o segundo maior do Brasil – o primeiro foi o de Palmares, em Alagoas – e abrigou cerca de 10 mil negros. Os outros quilombos do município Pai Felipe e Santos Garrafão eram menores, mas não menos importantes.

“Os quilombos tinham organização de defesa e uma hierarquia com forma econômica e de sobrevivência. O escravo era autorizado a ficar pelo líder do quilombo. Ele dizia onde ele iria morar e se teria de construir alguma coisa. Tudo era feito de forma ­comunitária sobre a regência do líder. Ele comandava tudo”, explicou o historiador Flavio ­Viana. Esses territórios eram desenvolvidos em áreas consideradas de ­difícil acesso.

O quilombo do Jabaquara era liderado por Quintino de Lacerda, sargento de patente do Exército e que anos mais tarde foi eleito o primeiro vereador negro de Santos. Era localizado na região que atualmente leva o mesmo nome, no sopé do morro do ­Jabaquara.

O quilombo do Pai Felipe, localizado ao lado do quilombo do Jabaquara, nas encostas do Monte Serrat, tinha o mesmo nome de seu líder e característica mais voltada à religiosidade.

Já o Santos Garrafão ficava na Ponta da Praia. Não se sabe ao certo em que região. O quilombo foi formado em uma área rural. “Ele (o Santos Garrafão) vendia pinga na Ponta da Praia. Na Ponta da Praia haviam sítios grandes e alambiques de cachaça de cana de açúcar. Ele permitia que os negros morassem na terra dele em troca de trabalho”, afirmou o ­historiador.

Pós-abolição: negros sem terra, sem nome e sem trabalho

Com a abolição da escravatura, os quilombos santistas foram se dissolvendo. Os quilombolas do Jabaquara migraram para habitações precárias no Centro, próximo ao Porto, onde muitos conseguiam trabalho como carregador. Santos Garrafão vendeu o sítio. Os moradores do Pai Felipe seguem para os morros do Bufo e Pacheco, que se tornariam os primeiros redutos de predominância negra pós-abolição na cidade. Apesar da liberdade, a vida ainda ­continuaria difícil.

“O primeiro censo mostra quantidade grande de negros em Santos pós-abolição. A maioria ficou pelo Centro antigo e região do Mercado municipal e Cemitério do Paquetá. Uma lei de antes da abolição proibia negro de comprar terra mesmo sendo alforriado”, explicou o historiador Flávio Viana.

Os escravos então libertos não tinham nome de origem africana. Foram batizados na igreja católica com nomes cristãos: José, Maria, Pedro.

“Quando houve a abolição esses negros tiveram que ser libertados e registrados. Não tinham sobrenome. Não sabiam o que era sobrenome. Acabavam dando o sobrenome dos patrões, a maioria portugueses. Por isso que no Brasil não tem negro com nome africano”, ressaltou Viana.

Encontrar trabalho também foi dificuldade. As leis também proibiam o negro de ter chapa como motorista de táxi e de exercer profissões de cunho liberal, a maioria vivia de pequenos serviços ou do trabalho portuário. “Se pegar fotos do Porto de Santos até o início da mecanização eram negros que carregavam sacos nas costas. Sacas de café de 60 quilos”, afirmou Viana.

As leis de vigilância sanitária no Brasil também fizeram com que os negros se distanciassem de áreas consideradas nobres. “O movimento de limpeza política e higienista exigia que se derrubasse tudo para a construção de avenidas e palácios. Esse pessoal não tinha muito que fazer e acabou migrando para as periferias”, conclui o historiador.

Centro de Culturas e biblioteca evidenciam história afrobrasileira

No complexo onde está localizado o Sítio da Ressaca, no bairro do Jabaquara, na capital paulista, a história e cultura afro-brasileira são evidenciadas. As atividades realizadas no Centro de Culturas Negras do Jabaquara são abertas ao público em geral. A objetivo é fazer com que o espaço, que também abriga biblioteca com acervo temático, se firme como equipamento referência e de diálogo.

“Uma das nossas metas é fazer com que o espaço tenha a identidade de nome, visual e geográfica consolidada e firmada de uma vez por todas. A segunda ideia é que a gente consiga estabelecer uma rede nacional em que todos esses espaços, que eu chamo de espaço de referência da cultura negra, eles possam dialogar e promover trocas culturais entre eles. Penso que isso vai reforçar o trabalho e a valorização de várias coisas no Brasil como um todo”, destacou Gerson Rodrigues, coordenador do Centro de Culturas Negras do Jabaquara.

O gestor também comentou a relação do Sítio da Ressaca com os quilombos de Santos e a história da escravidão no Brasil. “Estamos iniciando pesquisas em parceria para identificar o que era o Sítio da Ressaca antes mesmo de ser o sítio, depois que se tornou o sítio com a chegada desse equipamento cultural e como se deu essa relação com os homens negros de São Paulo”, afirmou Rodrigues.

O acervo temático da biblioteca, que conta com obras de autores negros e que faz referência ao negro, pode ser consultado por qualquer pessoa. “É um dos únicos da cidade de São Paulo. Um dos únicos que resgatam esse assunto e procuram abordar todos os aspectos da cultura negra. Tem esse acervo temático aqui e na faculdade da USP, que é um acervo universitário, não um acervo público e municipal como o nosso”, destacou Tatiana Rodrigues Nascimento, bibliotecária responsável pelo acervo temático.

 

Fonte: http://www.diariodolitoral.com.br/cotidiano/13-de-maio-a-rota-e-a-vida-dos-escravos-fugidos-para-santos/99128/

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